Fim de domingo. Domingo é dia de saudade. Mas saudade é constante. Todos os dias eu sinto saudade. Eu acordo, todos os dias da minha vida, e sinto saudade. É tipo aquela dor de cabeça que eu sentia com frequência mas que não tinha remédio então eu tive que me acostumar a viver com ela ali. Saudade é dor sem remédio. Mas hoje, nesse fim de domingo, a saudade inflamou. Inflamou, doeu mais forte, escorreu pelos olhos, entupiu o nariz, fechou a garganta... Inflamou, doeu, sem remédio. Eu queria correr pra casa, cortar o continente, me jogar no mar, atravessar a nado... Eu queria correr pra casa chegar a tempo do café da tarde, deitar na rede que fica nos fundos receber carinho de minha mãe sentada na cadeira ao lado enquanto ouvimos meu pai cantar que la belle de jour era a moça mais linda de toda cidade. Eu queria correr pra casa e me jogar nos melhores abraços, sentir aquecer o coração e reforçar a base dos pés pra poder caminhar mais firme. Eu queria correr pra casa e acabar com essa dú...
Quando tudo começa a perder o sentido é que bate o desespero. Puro desespero. O sabor do nada de antes, de agora e de depois. Medo tamanho que é possível imaginar que as lágrimas correrão eternamente. É tão mais fácil ter fé. Ter no que acreditar, achar que existe mesmo Algo (qualquer algo) maior que rege o Universo, que tudo criou, e portanto, tem todo o direito de decidir o que é certo ou errado. Uma força superior que seja capaz de curar aquela doença, trazer paz àquela família, e esperança pra quem não sabe esperar. É bom, confortável, e até cômodo crer que 'seja o que Deus quiser'; isso tira muito a culpa de ter falhado (não foi dessa vez, mas Deus sabe o que faz). Jah providenciará. Ajuda, protege, cuida, guia. Conseguir se entregar tranquila e cegamente porque Ele vai te guiar! Vai? E se a sua Fé não for tão grande quanto você acredita ser? São dimensões muito maiores, questões muito mais abrangentes. Tem que ver além dos olhos, além da própria vida. Tem que v...
Enquanto encarava o computador hoje, com uma maldita dor de cabeça, um café na mão, e a ansiedade e culpa que aparecem sempre que não consigo produzir tanto no trabalho, cheguei à constatação de que de repente, na minha vida, todo mundo virou um(a) parceiro(a) sexual em potencial. Daí eu poderia partir em diferentes caminhos: como semanas cheias de trabalho e eventos sociais me deixam exausta, por isso a dor de cabeça, mas insisto em me ocupar de todas as coisas do mundo; ou sobre minha teimosia em tomar café, mesmo sabendo que talvez (muito provavelmente) isso vá piorar a enxaqueca; ou como tenho uma relação estranha de evitar remédios a todo custo que me fez quase que amigar todas as dores; ou ainda, como minha mente funciona a todo vapor, numa mistura de aleatoriedades correndo pra lá e pra cá, feito pessoas que acabaram de entrar em uma loja de eletrodomésticos em plena black friday mas não fazem ideia do que querem comprar. Com muito esforço eu empurro todas essas possibilidades p...
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